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Empreendedorismo jovem na ETEC. A escola como espaço público de educação

Publicado em (06-04-2017)

António Nóvoa, intelectual português dedicado à formação de professores, diz que a contemporaneidade impõe desafios aos educadores. Ele propõe um novo contrato entre a escola e a sociedade. Não se trata do antigo debate acerca da relação escola-sociedade, mas “de promover a construção de um espaço público de educação, no qual a escola tem o seu lugar, que não é um lugar hegemónico, único, na educação das crianças e dos jovens”. Ele defende que a aproximação da escola com os órgãos públicos e outros agentes seja deliberativa, de tal modo que as instituições sejam parceiras e possam contribuir efetivamente na formação dos estudantes.

Esse conceito embasou a concepção e realização do evento denominado Ceres. Empreendedorismo Jovem na ETEC, transcorrido na manhã do dia 30/3. A ação materializa objetivos da Agência INOVA Paula Souza, com a finalidade de promover o desenvolvimento econômico e social do Estado de São Paulo, tendo como foco os estudantes e professores que compõem a rede Paula Souza de ETEC e FATEC.

O evento constituiu-se numa oportunidadepedagógicapara se materializar conceitos, como os de cultura da inovação e empreendedorismo por meio do protagonismo juvenil. Apesar de se constituir numa iniciativa individual, o empreendedorismo só acontece coletivamente, pois prescinde de fornecedores e de consumidores, além, entre outras, das instâncias legais.

Estudantes cujas famílias desenvolvem atividades rurais e outros que processam alimentos com matérias primas vindas do campo inscreveram-se como empreendedores e produziram doces, bombons, geleias, condimentos, bolos, pães, e outros alimentos para vendas numa feira interna.

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Esquerda. Amo muito. Feira do empreendedorismo jovem! Melhor banca
Foto retirada do Facebook da aluna Adriana de Lima Fornarolo, que vendeu trufas de maracujá, beijinho e brigadeiro.Direita: Professoras e alunas da ETEC Prof.ª Carmelina Barbosa expõem produtos da Cooperativa Escola. Foto: Leonardo Tukyama.
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Esquerda: Larissa e Luíza expõem seus produtos artesanais. Direita: Representantes da APPRAR vendem polpas e sucos naturais. Fotos: Leonardo Tukyama, 30/03/2017.

A logística do evento consistiu-se em quatro etapas ou aspectos: a organização, o aprendizado, o empreender e o entretenimento. A temática do evento contemplou a alimentação, considerando a necessidade comum da mesma, sua relação com a ciência e sua identidade com o perfil socioeconômico local e regional. O nome Ceres refere-se à deusa romana protetora da agricultura, de onde advém a palavra cereal.

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Estudantes, professores e convidados circulam no espaço da feira empreendedora.
Foto: Alexandre Mota, 30/03/2017

Mais de quinhentos adolescentes, a cada trinta minutos, movimentaram-se pelas treze estações de aprendizagem. Em cada estação, um profissional os aguardava com valiosas informações acerca dos recortes temáticos pré-selecionados, como o papel da ciência na produção de alimentos; a agregação de valores na agricultura familiar; o papel do associativismo rural; formação de custos dos alimentos in natura e processados; o papel das abelhas na produção de alimentos; os desafios do empreendedorismo; a importância da fiscalização na qualidade dos alimentos; a importância do marketing na construção de uma marca; como transformar produtos olerícolas em atividade rentável; boas práticas agrícolas e qualidade dos alimentos; conceituação de produtos orgânicos e agroecológicos; o potencial de negócio da pequena produção rural; tecnologias hightech na agricultura.

Constituindo um dos pilares da iniciativa didático-pedagógica, profissionais especializados representantes de instituições públicas e privadas abordaram os temas anteriormente relacionados. Nossos agradecimentos aos profissionais da APTA (Agência Paulista de Tecnologia para o Agronegócio), UniFAI (Centro Universitário de Adamantina, cursos de Economia, Geografia e Nutrição), CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), APPRAR (Associação Passiflora dos Produtores de Maracujá de Adamantina e Região), SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), ATR Geologia e Meio Ambiente, professores dos três colégios agrícolas envolvidos, e Vigilância Sanitária de Adamantina. A Prefeitura Municipal também foi parceira: instalou o palco para o show artístico e trouxe seu projeto Semeando o saber, que consiste na doação de livros aos interessados.

Um dos destaques do evento foi a participação do grupo Sementes Crioulas, de Pauliceia. Seguindo a tradição milenar de produção de alimentos para o autoconsumo e de partilha das sementes, os agricultores do Assentamento Regência cultivam cerca de setenta variedades de grãos, tubérculos, frutas, legumes e verduras, sem nenhuma manipulação genética. Junto com os guardiões dessas sementes, tivemos a presença do padre Afonso Maniscalco, vigário de Pauliceia, um entusiasta e articulador do grupo.

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O guardião José Luiz das Chagas e sua esposa Vilma expõem parte do seu banco familiar de sementes crioulas e partilham sementes com os estudantes. Fotos: Antônio Carlos Zulato, 30/03/2017
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Esquerda: Prof. José Ap. dos Santos expõe a importância das abelhas para a polinização.
Direita: Pesquisador da APTA José Carlos Cavichioli expõe técnicas para multiplicação de frutíferas. Fotos: Leonardo Tukyama e Alexandre Mota, 30/03/2017.

Investindo na construção da eficiência, dias antes do evento os estudantes foram treinados pelo Corpo de Bombeiros de Adamantina para evacuação de ambientes fechados e povoados, em situação de emergência. Além dos conhecimentos básicos de segurança pessoal, eles exercitaram táticas de movimentação organizada. O resultado foi o show de civilidade que demonstraram durante os deslocamentos entre as estações de aprendizagem.

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Depois da aula teórica, estudantes evacuam o prédio da ETEC Prof. Eudécio Luiz Vicente, em exercício prático de técnicas de evacuação em situações de emergência. Orientações técnicas do cabo Marcelo Alvarenga e do soldado José Roberto Rodrigues Pardo, do Corpo de Bombeiros de Adamantina, em 21/03/2017. Fotos: João Paulo M. Penteado.

No marketing, várias ações compuseram o pré-evento. Sempre em grupos, trabalharam a confecção de um banner para as redes sociais, compuseram a relação de produtos e preços, divulgaram individualmente seus produtos, e noticiaram o evento na rádio comunitária Life FM, 107,9 MZ.

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Nas salas de aula e nos murais dos corredores, banner, divulgação individualizada e relação de produtos e preços. Na rádio Life, Eduardo, Vinícius, Letícia e Mariana divulgam o evento. Fotos: Izabel C. Gil e Lúcia Prado, 29/03/2017.

Três escolas integraram a ação: a ETEC Prof. Eudécio Luiz Vicente, anfitriã; ETEC Eng. Herval Bellusci, também de Adamantina; e ETEC Prof.ª Carmelina Barbosa, de Dracena. Valorizando o capital humano local e consolidando a integração, professores das três escolas participaram como palestrantes nas estações de aprendizagem, enquanto estudantes compartilharam o saber e demonstraram seus talentos no show musical, que aconteceu durante a feira. Sendo a música uma das mais fortes manifestações culturais de uma sociedade, priorizaram-se ritmos e letras que marcam a identidade rural. Mais que um espetáculo artístico, os artistas promoverami um genuíno resgate do cancioneiro rural brasileiro. Estudantes das três ETEC alegraram a manhã empreendedora, enquanto membros da Orquestra Caipira de Violeiros de Adamantina selaram o espetáculo com interpretações primorosas.

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Estudantes apresentam número musical. Hélio de Carvalho Leandro e Ione Kimura valsam ao som da Orquestra Caipira de Violeiros. Fotos: Alexandre Mota e Leonardo Tukyama, 30/03/2017.

Organizados em grupos temáticos, na etapa do pós-evento os estudantes registrarão e sistematizarão a experiência de diferentes formas: fotografias, vídeos e textos (entrevistas, sínteses, relatórios técnicos, poemas e paródias). Toda essa produção tem como finalidade o estímulo à autoria tanto textual quanto ilustrativa. Esse material será publicado no site www.onuinfoeteceudecio.com.br, produzido e mantido pelos próprios estudantes, em trabalho multidisciplinar. Dando escala global às iniciativas locais, o evento Ceres. Empreendedorismo Jovem na ETEC está conectado a uma ampla proposta da ONU (Organização das Nações Unidas) denominada ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Ele contempla o ODS 8 (Crescimento econômico sustentável) e o ODS 12 (Consumo responsável).

Resguardando a identidade de cada escola, o evento partiu de aspectos comuns entre elas. Para a professora Jéssica Rodrigues, Agente Local de Inovação (ALI) da ETEC de Dracena, “trabalhar em rede é muito enriquecedor. Desta vez, fomos a Adamantina. A próxima será na ETEC de Dracena.”. A professora Daniela Andreotti de Oliveira, ALI da ETEC Eng. Herval Bellusci afirma: “o evento contribuiu para a vivência prática de organização, socialização, parceria e empreendedorismo. Trabalho feito, objetivos alcançados”. A professora Márcia Pamplona Cavalcante, ALI da ETEC anfitriã, acredita que o evento constituiu“um pontapé inicial para realização de novos eventos objetivando o desenvolvimento sustentável e o crescimento pessoal do aluno”. As organizadoras contaram com apoio de seus gestores e do engajamento dos professores e funcionários das respectivas escolas. O êxito decorre do esforço coletivo e do comprometimento de toda a equipe.

Tamanha mobilização e resultados tão satisfatórios servem como estímulo para a continuidade do projeto. A educação do século XXI requer novos olhares e novas metodologias para ressignificação do papel da escola.O empreendedorismo responsável e engajado com as questões do nosso tempo promove ganhos materiais. Geração de emprego e renda com responsabilidade social, ambiental e econômica promove a justiça social.

 

Prof.ª dr.ª Izabel Castanha Gil
Coordenadora Regional da Agência Inova Paula Souza
Professora da ETEC Prof. Eudécio Luiz Vicente